É revoltante ver a história de Klara Castanho, atriz de 21 anos. Segundo seu relato, . Descobriu, após algum tempo, que havia um feto em seu útero. Às vésperas do parto, decidiu colocar o bebê para adoção. Um trâmite legal e possível. E triste do começo ao fim.

Klara foi violada diversas vezes. A última — também irreversível — foi por uma profissional da saúde no hospital que sugeriu divulgar sua história para um colunista de celebridades. Minutos depois, o próprio colunista mandava mensagens para a atriz. Recém parida, previamente violentada, ela foi julgada por ter decidido doar a criança, fruto de uma agressão, para doação. A história vazou.

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Como se não bastasse essa lista cruel de agressões, teve que lidar com a exposição de sua situação contra sua vontade. E, por conseguinte, o julgamento que viria (e veio) depois. Teve gente chamando de “abandono de incapaz” a prática que coloca o recém-nascido para adoção. Na verdade, é justamente o oposto disso – algo legalizado que visa dar um lar e amor para a criança. É muita tristeza.

Impressionante como a mulher nunca acerta – abortar é errado, parir também. Estuprar parece mais perdoável, afinal, a mulher costuma “estar pedindo”. É nojento.

Claro que não dava para divulgar uma história dessas – qualquer um com o mínimo de sensibilidade percebe que a exposição não vale o clique. Mas no colunismo de celebridades, parece que qualquer coisa vale o clique. E nessa briga maluca por audiência, acaba se pisando em cima de valores que deveriam ser inerentes ao ser humano, seja ele jornalista ou não.

Os jovens chamam de arrastar — uma gíria bem ilustrativa para quando você pega uma história e leva para outras pessoas. Os mais velhos chamam de fofoca. Em situações inofensivas, pode até ser terapêutico falar da vida dos outros. O problema é quando a exposição vem desse jeito que veio a de Klara. Um colunista vai à TV e diz que tem uma situação pesadíssima acontecendo com uma atriz. Outra celebridade não cita seu nome, mas diz que o que ela fez é um absurdo. Todos os holofotes são virados para a jovem e a sociedade começa a apontar os dedos. Ninguém nunca ouviu falar em ?

O jornalismo de celebridades precisa de filtro

Essa sede de audiência do colunismo de celebridades precisa de edição: é papel da chefia ter a sensibilidade para entender o que vale ou não publicar. Muitas histórias chegam aos profissionais nas redações. Cabe entender se é correto ou não torná-las públicas. Falo isso com uma mão na consciência. O jornalismo tem cobranças que são desumanas às vezes.

No acidente da Gol em 2007, saí do jornal onde trabalhava com a missão de entrar na casa de uma garota que tinha 15 anos e havia acabado de perder o pai na tragédia. O fotógrafo havia recebido instruções claras: fazer imagens dela chorando. Fui recebida, entrei na sala, comecei a conversar com a garota e ela, claro, chorou. Seu pai havia saído de casa para viajar e sido carbonizado com outras 200 pessoas dentro de um avião. O fotógrafo começou a clicar. Um primo dela percebeu o que estávamos fazendo e nos escorraçou de lá. Enquanto me empurrava pela garagem, ele gritava: “você não sabe o que é perder um pai na adolescência”. Eu, por acaso, sabia.

São incontáveis os paparazzi incômodos que fiz no meu tempo de jornalista de celebridades em revista. Àquela época, as matérias não rendiam cliques, mas vendiam capas em banca. Um furo era atestado de competência do repórter. Lembro-me de Débora Falabella me olhando fundo nos olhos para contestar minhas ferramentas de apuração enquanto eu, exausta de noites sem dormir correndo atrás da história, chorava. O que ficou disso? Uma matéria que ninguém mais lembra e a culpa da jornalista que aqui escreve de ter magoado alguém.

É do jogo da fama que celebridades apareçam às vezes quando não querem. É também parte dessa dinâmica que as divulguemos quando elas precisam estar na mídia. Mas é desumano que elas apareçam em situações tristes como essa que vive Klara Castanho.

Lembro da atriz, então com 13 anos, na festa de lançamento de Amor à Vida, em 2013 no Projac. Um olhar compenetrado nas entrevistas, um profissionalismo precoce com os jornalistas que ali estavam para divulgar seu trabalho. Fiquei impactada com o jeito como ela respondia as minhas perguntas. Aquela garotinha virou um mulherão. E eu lamento que esteja passando por tanta dor. Seu desejo era fingir que nada aconteceu para esquecer a história. Não vai mais ser possível.

A vontade é de pegar a atriz no colo e pedir desculpas. Pelos meus colegas de profissão, pelos profissionais da saúde sem ética e por cada anônimo que achou por bem julgá-la no tribunal sem cabimento da internet. Desculpe, Klara. Você merece apenas acolhimento.

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