O acesso cada vez mais precoce a smartphones, tablets e televisores tem acendido um alerta crucial na saúde pública. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) chama a atenção de pais e responsáveis para o perigo invisível do tempo excessivo de exposição das crianças às telas. Embora a tecnologia seja uma realidade inevitável no cotidiano, o bombardeio contínuo de estímulos digitais e a falta de limites comprometem diretamente marcos fundamentais do crescimento físico, mental e emocional na infância.

O alerta feito pela Secretaria Municipal de Saúde acompanha uma preocupação nacional. O Ministério da Saúde, baseando-se nos indicadores mais recentes da pesquisa TIC Kids Online Brasil, estudo nacional realizado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), alerta que o início do contato com o ambiente digital na primeira infância mais que dobrou no país nos últimos anos, onde o percentual de crianças que acessam a rede pela primeira vez até os 6 anos de idade saltou de 11% para 23%. O Ministério também chama a atenção para a elevada taxa de conectividade na adolescência: 93% dos jovens entre 9 e 17 anos utilizam a internet no país. Desse total, o smartphone se consolida como a principal ferramenta de navegação, sendo o meio de acesso de 98% desse público.

Mais do que a conectividade, o que preocupa os profissionais de saúde é o comportamento dependente gerado pelo excesso de tempo de exposição. Ainda de acordo com os dados mais recentes endossados pelo Ministério da Saúde, 24% dos jovens brasileiros relatam que tentam passar menos tempo na internet, mas não conseguem, enquanto 22% admitem que já deixam de passar tempo com a família, amigos ou estudando por conta do uso excessivo das telas. De acordo com especialistas, no aspecto cognitivo, esse hábito pode gerar atrasos significativos no desenvolvimento da fala e reduzir a capacidade de concentração e o foco dos pequenos.

O psicólogo do Centro de Atenção Psicossocial Infantil (Capsi) Cirandar, da Prefeitura de João Pessoa, Vimário Lacerda, explica que a infância e a adolescência constituem períodos fundamentais para a construção da identidade, do emocional, das habilidades sociais e da capacidade de autorregulação.

“A exposição excessiva às telas e às redes sociais pode favorecer o aumento da ansiedade, dificuldades de concentração, alterações no sono, redução das interações presenciais e comparações constantes com padrões irreais de sucesso e beleza, potencializando sentimentos de inadequação, baixa autoestima e sofrimento psíquico. O desafio não está apenas no tempo de exposição, mas principalmente na qualidade das experiências vivenciadas no ambiente digital. O acesso a conteúdos inadequados, a exposição ao cyberbullying, à violência, à desinformação e à pressão por aceitação social são fatores que exigem vigilância, diálogo e acompanhamento constante por parte dos familiares, das escolas e dos profissionais que atuam na proteção da infância e da adolescência”, alerta o psicólogo.

Impor esses limites em uma rotina acelerada tem sido uma das principais dificuldades das famílias. A cirurgiã-dentista Carolina França de Melo sentiu isso na pele com os filhos Vítor, de 16 anos, e Gabriela, de 11. Ela conta que decidiu mudar os hábitos em casa após notar o impacto negativo do ambiente digital no comportamento e na rotina dos jovens.

“A minha filha Gabriela nem celular tem ainda, mas ganhou um tablet recentemente e percebi uma mudança grande. Ela chega da escola e vai direto para a cama assistir vídeos, demora para fazer as tarefas escolares e já não quer sair de casa. Já o Vítor, outro dia, estava estudando com o computador na frente, o tablet no colo e o celular ao lado. Fiquei pensando como alguém consegue se concentrar assim. Depois disso, passamos a controlar mais o tempo de uso e a criar regras para o digital dentro de casa. Ainda não é fácil e exige muita persistência, mas acredito também que esse exemplo precisa começar principalmente por nós, adultos. Afinal, o equilíbrio no uso das telas é um desafio diário para toda a família”, relata a mãe.

Além dos prejuízos emocionais, a saúde física é severamente afetada pelo comportamento sedentário. O tempo prolongado de inatividade eleva o risco de obesidade infantil e desencadeia problemas de postura. A luz azul emitida pelos aparelhos, especialmente à noite, interfere diretamente na produção de melatonina, o hormônio do sono, resultando em noites mal dormidas.

“Torna-se indispensável fortalecer uma cultura de educação digital, promovendo o uso consciente e equilibrado da tecnologia. Ensinar crianças e adolescentes a utilizarem a internet com responsabilidade é uma tarefa compartilhada entre família, escola e sociedade. Mais do que controlar o tempo de tela, é essencial conhecer os conteúdos acessados, dialogar sobre as experiências vividas no ambiente virtual e estabelecer limites coerentes. A presença dos adultos continua sendo o principal fator de proteção para o desenvolvimento saudável, pois nenhuma tecnologia substitui a segurança emocional construída por meio da convivência, do afeto e da escuta nas relações familiares”, reforça o psicólogo.

A principal recomendação para as famílias é buscar o equilíbrio, substituindo o tempo digital por interações reais, como brincadeiras ao ar livre e leitura de livros. A SMS lembra que as Unidades Básicas de Saúde (UBS) do Município contam com equipes multidisciplinares preparadas para acompanhar o desenvolvimento das crianças e oferecer suporte e orientação preventiva aos pais.

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